O desejo pede passagem

O desejo pede passagem

Uma reflexão sensível sobre yoga, presença, ressentimento e desejo como potência viva — uma prática que respeita o corpo e o tempo.

Há momentos em que o corpo fala antes do pensamento. Nesses instantes, a prática de yoga pode se tornar um espaço de escuta — sem pressa, sem correção, sem exigência. Um espaço onde algo que estava contido começa, aos poucos, a pedir passagem.

Nem sempre o que surge é confortável. Durante a prática, podem aparecer tensões, incômodos, resistências, pensamentos repetidos, emoções antigas. Há afetos que carregam histórias longas: ressentimentos silenciosos, culpas difusas, uma certa dureza diante da própria vida. Quando não encontram escuta, esses estados tendem a se fixar no corpo e a se repetir. Mas quando encontram presença, algo começa a se mover.

Vivido com atenção e gentileza, o yoga pode se tornar um gesto investigativo — não no sentido de analisar ou explicar, mas de sentir junto. Reconhecer o que está acontecendo. Permitir que seja como é. Investigar com curiosidade e cuidado. E, talvez o mais delicado: não se identificar com aquilo que passa. A tensão não é identidade. O desconforto não é essência. O ressentimento não é quem somos.

Essas atitudes, tão presentes na prática corporal, dialogam profundamente com o método RAIN, utilizado na meditação como um apoio à consciência e à autocompaixão. Mais do que uma técnica, o RAIN aponta para uma forma de estar: reconhecer, aceitar, investigar e lembrar que a experiência é transitória. No yoga, isso acontece muitas vezes sem nome — no momento em que respeitamos um limite, quando deixamos de brigar com o corpo, quando escutamos o que uma sensação quer mostrar e seguimos respirando.

É nesse campo de escuta que o desejo reaparece. Não como cobrança por desempenho, nem como ideal a ser alcançado, mas como potência viva. Desejo de presença. Desejo de continuidade. Desejo de habitar o próprio corpo com mais verdade e menos violência. Um desejo que não empurra, não exige, não grita — apenas insiste com suavidade.

A prática, então, deixa de ser apenas forma ou técnica. Torna-se um espaço de elaboração sensível, onde o corpo metaboliza afetos, o tempo desacelera e a experiência ganha sentido. Não para eliminar o que dói, mas para dar movimento ao que estava endurecido.

Talvez seja isso que sustente uma prática ao longo do tempo: não a busca por perfeição, mas a possibilidade de escuta. Um caminho que respeita ritmos, honra limites e reconhece que cada gesto de presença já é, em si, um gesto de cuidado.

Quando há espaço, o desejo passa.
Como a respiração que entra quando encontra abertura.

Namastê!
Silvia Oliveira