As árvores da frente do meu condomínio foram cortadas. Diziam que estavam comprometidas. Era época de chuvas fortes. Ainda assim, o som da motosserra parecia cortar algo além da madeira.
Olhei pela janela e pensei nos passarinhos. “Devem estar ressentidos.”
Logo percebi: eu estava projetando neles um sentimento que era meu.
Foi assim que cheguei ao livro Ressentimento, da psicanalista Maria Rita Kehl. Ali encontrei uma definição que me atravessou: o ressentimento não é apenas raiva. É uma disposição que se instala. Uma memória que não se move. Uma narrativa que se repete.
Não é um impulso.
É um jeito de navegar que insiste na mesma rota.

Ao dialogar com Nietzsche, Kehl aponta que a raiva impedida pode voltar-se contra o próprio sujeito. O ressentido acusa, mas não se reconhece como vingativo — não por perversidade, mas por impotência.
Mas que impotência é essa?
Uma incapacidade real?
Ou aquilo que sentimos quando precisamos assumir o próprio leme?
Às vezes, o ressentimento nasce quando ainda esperamos que alguém esteja segurando o banco da bicicleta — mas já estamos pedalando sozinhos.
O susto vira medo.
O medo vira acusação.
E a acusação pode virar identidade.
No campo clínico, Kehl observa que o ressentimento frequentemente mantém uma dependência infantil em relação a um outro supostamente poderoso, de quem se espera proteção ou validação. Prefere-se ser protegido — ainda que prejudicado — a ser livre, mas responsável.
Essa reflexão é desconfortável.
Porque o ressentimento não fala apenas do que nos fizeram.
Fala também do que não sustentamos.
Nietzsche recusa o arrependimento como valor moral. A vida não pode ser corrigida retroativamente. Não se trata de negar o sofrimento, mas de não aprisionar o presente ao passado.

Talvez o oposto do ressentimento não seja o perdão idealizado.
Talvez seja direção.
O ressentimento fixa.
A direção move.
E é aqui que o yoga entra — não como fuga espiritual, mas como prática de presença.
No tapete, ninguém respira por nós. Ninguém sustenta nosso equilíbrio. A prática é intransferível. Cada postura é um pequeno exercício de responsabilidade interna: ajustar, recalibrar, escolher novamente.
Não podemos alterar o vento que soprou ontem.
Mas podemos decidir como posicionamos as velas agora.
Talvez amadurecer seja isso:
parar de esperar que alguém segure o banco
e começar a confiar no próprio movimento.
Não corrigir o mar.
Navegar.
Namastê!
Silvia Oliveira
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