Contentamento como ponto de partida – Coragem para estar na imperfeição da condição humana
Em A coragem de ser imperfeito, Brené Brown aborda uma crença bastante comum — e muitas vezes inconsciente: a sensação de que, quando tudo vai bem, algo ruim inevitavelmente se aproxima. Como se a alegria precisasse ser vigiada. Como se relaxar fosse arriscado.
Esse movimento interno mantém o corpo em alerta e a mente projetada para o futuro. Mesmo em momentos de tranquilidade, surge um preparo silencioso para o impacto. O presente, então, deixa de ser plenamente habitado.
Essa observação contemporânea dialoga profundamente com o que o yoga investiga há séculos.
Ao afirmar, no Yoga Sutra II.42, que através do contentamento (santosha), alcança-se a felicidade suprema, Patañjali não aponta para uma felicidade eufórica ou idealizada. O sutra nos conduz a uma disposição interna capaz de permanecer com a experiência tal como ela se apresenta, sem a necessidade constante de controle, defesa ou antecipação.

Brené Brown nomeia esse padrão como foreboding joy — o medo antecipado da perda quando algo bom acontece. No caminho do yoga, reconhecer esse funcionamento da mente faz parte do processo meditativo. Enquanto houver vigilância excessiva, não há repouso real. Quando a mente se antecipa, a presença se fragmenta.
Por isso, o contentamento não aparece como um estado final a ser alcançado, mas como ponto de partida para a meditação. Um solo interno que permite reconhecer o que está presente, dar espaço à experiência, olhar com curiosidade e gentileza — sem se confundir com ela.
É nesse ponto que o hatha yoga oferece suporte. Corpo, respiração, ritmo e pausa educam a presença de forma orgânica, preparando o terreno para o silêncio sem forçar a mente.
O yoga se apresenta como um sistema integrado. Cada prática sustenta a seguinte. Nada acontece de forma isolada — tudo se entrelaça no processo de aprender a estar.
Quando nos permitimos viver momentos de bem-estar sem culpa, sem desconfiança e sem a necessidade de nos manter em constante estado de alerta, algo se reorganiza. O corpo encontra mais espaço. A respiração se aprofunda. A atenção retorna, naturalmente, ao agora.
Nesse espaço simples e desarmado, a meditação deixa de ser técnica e passa a ser continuidade da vida.
Coragem para estar — sabendo que a perfeição possível mora justamente na imperfeição da nossa condição humana.
Namastê!
Silvia Oliveira